Campanha da Fraternidade, Liturgia e o Ministério de Música

Autor: Rogério Hirota
Publicado originalmente em: 17 de abril de 2021
Revisado e atualizado em: 11 de setembro de 2026

Desde que comecei a tocar na Igreja e, principalmente, desde que passei a estudar mais profundamente a liturgia, existe uma questão que sempre me chamou a atenção:

Qual deve ser o espaço da Campanha da Fraternidade dentro da celebração litúrgica?

Minha grande dúvida sempre esteve relacionada ao fato de, durante a Quaresma, sermos frequentemente convidados a meditar sobre temas previamente definidos pela Campanha da Fraternidade.

Muitos desses assuntos tratam de problemas sociais reais e importantes. Minha crítica, portanto, não está na existência de uma preocupação cristã com as questões sociais.

A questão que levanto é outra: até que ponto esses temas devem ocupar espaço dentro da liturgia, especialmente durante a Quaresma, sem deslocar a atenção daquilo que é próprio desse tempo litúrgico?

A Quaresma é um dos períodos mais importantes do calendário litúrgico da Igreja. É tempo de penitência, conversão e preparação para a Páscoa do Senhor.

Por isso, algumas perguntas precisam ser feitas:

Até que ponto a Campanha da Fraternidade deve influenciar a liturgia?

Qual deve ser o papel do Ministério de Música diante disso?

É possível abordar questões sociais sem perder de vista o centro da celebração, que é Jesus Cristo?

Essas perguntas continuam importantes, principalmente para aqueles que exercem algum ministério dentro da Igreja.

A Quaresma possui um sentido próprio

Antes de discutirmos a Campanha da Fraternidade, precisamos compreender algo fundamental: cada tempo litúrgico possui identidade e espiritualidade próprias.

A Quaresma não existe para desenvolver determinado tema social. Sua finalidade espiritual é muito mais profunda: trata-se de um tempo de conversão, penitência, oração, jejum e preparação para a celebração da Páscoa do Senhor.

É um período no qual somos convidados a voltar novamente o coração para Deus.

Durante a Quaresma, a liturgia nos conduz progressivamente para o centro do mistério cristão: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

É tempo de silêncio.

Tempo de exame de consciência.

Tempo de arrependimento.

Tempo de conversão.

Tempo de reconhecer nossos pecados e nossa necessidade da graça de Deus.

Tempo de caminhar com Cristo até a Cruz para, com Ele, celebrar a vitória da Ressurreição.

Por isso, quando pensamos na música na Quaresma, precisamos ter consciência de que o canto também deve colaborar com esse caminho espiritual.

O Ministério de Música não existe simplesmente para tornar a celebração mais bonita.

Sua responsabilidade é muito maior: servir à ação litúrgica e ajudar a assembleia a rezar e participar do mistério celebrado.

Consequentemente, a escolha de uma música para a Missa não deveria partir apenas do fato de determinada canção ser bonita, conhecida ou estar associada a uma campanha pastoral.

O primeiro critério deve ser sempre a própria liturgia.

E onde entra a Campanha da Fraternidade?

É justamente neste ponto que, ao longo dos anos, passei a questionar a maneira como a Campanha da Fraternidade promovida pela CNBB é inserida durante a Quaresma no Brasil.

Quando temas como biomas, políticas públicas, água, povos indígenas e outras questões sociais ganham grande destaque durante o período quaresmal, entendo que existe o risco de deslocarmos a atenção daquilo que constitui o sentido primordial da Quaresma.

Não afirmo que essas questões sejam irrelevantes para os cristãos.

Pelo contrário: a fé católica possui uma dimensão concreta de caridade, responsabilidade moral e preocupação com o próximo.

Minha crítica está em transformar esses temas no eixo predominante de um período litúrgico que já possui finalidade espiritual própria.

A situação se torna ainda mais problemática quando os Ministérios de Música são orientados a executar repetidamente cantos da Campanha da Fraternidade em diferentes momentos da Santa Missa.

Nesse caso, a questão deixa de ser apenas pastoral e passa também pelo discernimento litúrgico:

o canto escolhido corresponde realmente ao momento da celebração?

Uma música não deveria ocupar determinado lugar na Missa simplesmente porque pertence à Campanha da Fraternidade daquele ano. É necessário analisar sua letra, sua finalidade e sua adequação ao momento litúrgico no qual será executada.

Minha crítica à influência da Teologia da Libertação

Ao observar historicamente a Campanha da Fraternidade e determinadas linhas pastorais desenvolvidas no Brasil, considero que não podemos ignorar a influência exercida pela Teologia da Libertação em setores da Igreja brasileira.

Na minha avaliação, essa influência ajuda a compreender por que determinados temas sociopolíticos ganharam tamanho protagonismo em algumas experiências pastorais e, por consequência, acabaram chegando também à forma como a Quaresma é apresentada em muitas comunidades.

Minha crítica é especialmente dirigida às interpretações da Teologia da Libertação que, ao meu ver, acabam colocando categorias políticas, sociais ou ideológicas em posição predominante na leitura da fé.

Quando isso acontece, existe o risco de o anúncio da conversão, do pecado, da graça, da Redenção e da vida eterna perder espaço para uma leitura predominantemente sociopolítica do Evangelho.

E é justamente aí que considero necessária uma formação católica sólida.

O músico católico deve obedecer, mas também precisa estudar

Nós, como integrantes de Ministérios de Música, devemos respeitar a autoridade daqueles que possuem responsabilidade pastoral sobre a comunidade, especialmente nossos padres e bispos.

Entretanto, obediência não significa abandonar a formação.

Também não significa que o músico deva deixar de estudar a liturgia, conhecer a doutrina da Igreja ou dialogar respeitosamente quando perceber problemas na escolha do repertório.

Quanto mais formado estiver o músico católico, melhores condições terá para conversar com seu coordenador, pároco ou responsável pela liturgia.

Esse diálogo não precisa ser uma disputa.

Pode começar com uma pergunta simples:

“Este canto realmente corresponde ao que a liturgia está celebrando neste momento?”

Esse tipo de pergunta muda completamente a discussão.

Em vez de uma batalha entre preferências musicais, passamos a discutir aquilo que realmente importa: o serviço à liturgia.

A missão do Ministério de Música durante a Quaresma

Nossa missão como músicos católicos não é utilizar a Missa como espaço para defender nossas preferências pessoais.

Também não deveria ser transformar o canto litúrgico em instrumento de qualquer corrente ideológica.

Nossa missão é servir à Igreja através da música e ajudar o povo a penetrar mais profundamente no mistério celebrado.

Durante a Quaresma, isso significa favorecer um ambiente que conduza à conversão, penitência, oração e preparação para a Páscoa.

O repertório precisa acompanhar esse caminho.

A música deve ajudar o fiel a olhar para Cristo.

Deve ajudá-lo a reconhecer sua necessidade de conversão.

Deve conduzi-lo ao mistério da Cruz.

E deve prepará-lo para celebrar a Ressurreição.

É importante, portanto, que esse debate aconteça dentro de nossas comunidades.

Não para provocar divisões, mas para que possamos refletir seriamente sobre aquilo que cantamos e sobre a finalidade da música na Santa Missa.

Uma mudança que pude acompanhar em minha própria paróquia

Graças a Deus, pelo menos na realidade que acompanho em minha diocese, percebo que algumas coisas mudaram bastante ao longo dos anos.

Quando comecei no Ministério de Música, no início dos anos 2000, a orientação recebida em minha paróquia era para que tocássemos o maior número possível de músicas relacionadas à Campanha da Fraternidade daquele ano.

Isso fazia com que o tema da campanha estivesse presente musicalmente em diversos momentos da celebração.

Atualmente, a realidade que vivencio é diferente.

Em minha paróquia, a orientação passou a ser utilizar, quando oportuno, apenas o Hino da Campanha da Fraternidade ao final da Missa — e mesmo sua execução não é tratada como obrigatória.

Para mim, essa mudança representa um avanço.

O tema pastoral pode continuar sendo apresentado e discutido em espaços adequados da vida da comunidade sem necessariamente ocupar vários momentos da celebração eucarística.

Conclusão: o músico católico precisa de formação litúrgica

Continuo rezando para que a Igreja no Brasil viva uma verdadeira renovação, recuperando cada vez mais a centralidade de Cristo e superando as influências da Teologia da Libertação que, na minha avaliação, contribuíram para uma excessiva politização de determinados ambientes eclesiais.

Mas essa renovação também depende de nós.

O músico católico precisa estudar.

Precisamos conhecer a liturgia.

Precisamos conhecer a doutrina.

Precisamos compreender aquilo que estamos cantando.

Precisamos saber por que determinado canto é adequado — ou inadequado — para determinado momento da Santa Missa.

Somente assim estaremos preparados para dialogar quando necessário.

O Ministério de Música ocupa uma posição de grande responsabilidade, porque a música alcança profundamente o coração humano.

Por isso, gosto de pensar que nós, músicos católicos, estamos na linha de frente: através do canto, ajudamos a abrir os corações e prepará-los para o encontro com Jesus Eucarístico.

Não somos o centro da celebração.

A Campanha da Fraternidade não é o centro.

Nenhum tema pastoral é o centro.

O centro é Cristo.

E nossa música deve sempre apontar para Ele.


Perguntas frequentes sobre Campanha da Fraternidade, Quaresma e música litúrgica

A Campanha da Fraternidade faz parte da Quaresma?

A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa pastoral realizada pela Igreja Católica no Brasil durante o período quaresmal. Entretanto, a Quaresma possui identidade litúrgica própria, centrada na conversão, penitência e preparação para a Páscoa de Cristo. Este artigo questiona justamente até que ponto uma campanha pastoral deve interferir no desenvolvimento dessa espiritualidade dentro da celebração.

O Hino da Campanha da Fraternidade precisa ser cantado em todas as Missas?

A escolha de um canto para a celebração não deveria acontecer simplesmente porque ele pertence à Campanha da Fraternidade. O Ministério de Música precisa considerar a letra e sua adequação ao momento litúrgico específico, seguindo também as orientações legítimas da autoridade eclesiástica responsável pela celebração.

Toda música da Campanha da Fraternidade é inadequada para a Missa?

Não necessariamente. A crítica apresentada neste artigo não significa afirmar que todo canto produzido para uma Campanha da Fraternidade seja automaticamente inadequado. A questão fundamental é avaliar se aquele canto concreto corresponde ao momento e à ação litúrgica em que será utilizado.

Questões sociais não fazem parte da fé católica?

Fazem. A caridade, a justiça, a dignidade humana e o cuidado com o próximo fazem parte da vida cristã. A questão discutida neste artigo é diferente: se temas sociais específicos devem ganhar tamanho protagonismo a ponto de obscurecer o caráter penitencial e cristocêntrico próprio da Quaresma.

Qual deve ser o principal critério para escolher músicas durante a Quaresma?

O primeiro critério deve ser a própria liturgia. O canto precisa estar de acordo com o momento celebrado e colaborar para a oração da assembleia. Durante a Quaresma, o repertório deve respeitar especialmente o caráter de conversão, penitência e preparação para o Mistério Pascal.

O músico deve questionar uma orientação recebida na paróquia?

O músico deve respeitar a autoridade legítima da Igreja, mas isso não elimina a necessidade de formação e diálogo. Quando houver uma dúvida litúrgica, o caminho mais adequado é estudar as normas da Igreja e conversar respeitosamente com o responsável pela celebração.

Por que a formação litúrgica é tão importante para o músico católico?

Porque o músico não está apenas executando músicas. Ele exerce um serviço dentro da celebração. Conhecer a liturgia ajuda a compreender o que cantar, quando cantar e por que cantar, evitando que preferências pessoais, modismos ou questões ideológicas ocupem o lugar do mistério celebrado.


Nota editorial

Este artigo expressa a reflexão e a posição pessoal de Rogério Hirota, músico católico, a partir de sua experiência em Ministérios de Música e de seus estudos sobre música e liturgia. Publicado originalmente em 17 de abril de 2021, o texto foi revisado em 11 de setembro de 2026 

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Comentários

  1. Gostei muito do texto base deste ano...a Campanha da Fraternidade sempre fez parte da minha vida de cristã e jamais tirei o foco da Busca em Deus ... da minha conversão...e ter um olhar voltado para os irmãos que comigo vão caminhar...se tiver algum erro dentro do contexto da campanha 2022 que pra mim é importante POR SER SOBRE A EDUCAÇÃO...FALAR COM SABEDORIA ENSINA COM AMOR ...DEVEMOS COMO BONS CRISTÃO DENUNCIAR...MAS SE NAO DEVEMOS ABRIR NOSSOBE JUNTO COM JESUS CAMINHAR ...SEMPRE LI SUAS POSTAGENS SOBRE A CAMPANHAS PASSADAS E SEMPRE VOCE SOUBE FAZER ESTE ELO . .

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    Respostas
    1. A Igreja pode se pronunciar e posicionar a respeito de temas sociais mas em momentos oportunos, criar algum evento para tratar eles e não usar o momento mais importante, o epicentro da nossa fé que é a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo para debater e tirar a atenção do fiel leigo do mais importante, viver a conversão e a penitência, o sacrifício de Cristo. Não faz sentido debater educação, politicas publicas quando a Igreja no mundo está olhando para o Sacrifico Pascal da Nossa Salvação, quem quer colocar o homem no lugar de Deus, a guerra social no altar é a Teologia da Libertação Marxista, Heresia que no tempo certo será ceifada da Igreja, assim como tantas outras que houveram nos 2000 anos de sua historia.

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