Seu Dom: O Maior Tesouro — Como Multiplicar os Talentos que Deus lhe Deu
Autor: Rogério Hirota
Publicado originalmente em: 16 de fevereiro de 2021
Revisado e atualizado em: 11 de setembro de 2026
Uma reflexão para músicos católicos sobre a Parábola dos Talentos, o crescimento no Ministério de Música e a responsabilidade de desenvolver os dons que recebemos de Deus.
A Parábola dos Talentos — Mateus 25,14-30
Em Mateus 25,14-30, Jesus apresenta a conhecida Parábola dos Talentos.
Um homem, antes de viajar, confia seus bens aos servos. A um entrega cinco talentos, a outro dois e ao terceiro apenas um, conforme a capacidade de cada um.
Os dois primeiros fazem aquilo que receberam produzir.
O terceiro, porém, tomado pelo medo, enterra o talento e simplesmente o devolve quando seu senhor retorna.
A parábola possui uma mensagem espiritual muito mais profunda do que uma reflexão sobre habilidades pessoais. Entretanto, ela também nos provoca a pensar sobre aquilo que fazemos com tudo o que Deus colocou em nossas mãos.
E é justamente a partir dessa passagem que gostaria de refletir sobre nossos dons, especialmente o dom da música.
O que estamos fazendo com aquilo que recebemos?
Estamos fazendo crescer?
Ou estamos enterrando nossos talentos?
O músico também pode enterrar seu talento
Quando pensamos em “enterrar um talento”, talvez imaginemos alguém que recebeu um dom e simplesmente decidiu não utilizá-lo.
Mas existe outra maneira, muito mais sutil, de fazer isso:
a acomodação.
Podemos continuar cantando.
Podemos continuar tocando.
Podemos continuar participando do Ministério de Música durante anos.
E, mesmo assim, permanecer praticamente no mesmo lugar.
Depois de certo tempo de caminhada, existe o risco de entrarmos no automático.
Aprendemos o suficiente para tocar as músicas que conhecemos, dominamos alguns acordes, encontramos uma maneira confortável de executar nosso instrumento e paramos por ali.
Já conseguimos tocar.
Então, por que melhorar?
É justamente aí que a Parábola dos Talentos pode nos provocar.
Se Deus colocou algo em nossas mãos, talvez a pergunta não seja apenas se estamos utilizando esse dom.
Precisamos perguntar também:
o que estamos fazendo para que ele produza frutos?
Invista no dom que Deus lhe deu
Essa é a principal mensagem que quero deixar neste artigo:
invista em você e invista no seu dom. Faça multiplicar os talentos que Deus lhe deu.
Isso não significa necessariamente gastar muito dinheiro.
Às vezes, o primeiro investimento é simplesmente voltar a estudar.
Pode ser aprender um acorde novo.
Treinar uma levada diferente.
Melhorar a afinação.
Aprender uma nova técnica.
Estudar canto.
Fazer algumas aulas.
Dedicar alguns minutos por dia ao instrumento.
Ou finalmente aprender algo que você vem adiando há anos.
Em outras situações, também pode fazer sentido investir em equipamento.
Trocar um encordoamento desgastado por um de melhor qualidade.
Fazer uma manutenção no instrumento.
Comprar um acessório que realmente ajudará no seu desenvolvimento.
Ou, quando houver condições, adquirir um instrumento melhor.
São pequenas decisões que podem nos tirar da inércia.
O importante é não permitir que aquilo que recebemos fique parado.
Nem sempre haverá alguém incentivando você
Uma das dificuldades que encontrei ao longo dos anos foi justamente a falta de incentivo para esse crescimento.
Já ouvi, por exemplo, que não havia necessidade de tantos instrumentos e que “um violão e uma voz já estavam de bom tamanho”.
E, dependendo da realidade de uma comunidade, realmente pode ser.
Uma celebração não precisa de uma grande banda para ter dignidade, e quantidade de instrumentos nunca será sinônimo automático de qualidade.
Mas existe uma diferença entre compreender a simplicidade e utilizar a simplicidade como justificativa para não desenvolver aquilo que podemos oferecer melhor.
É disso que estou falando.
Se você possui condições de crescer musicalmente, não espere necessariamente que alguém venha pedir isso.
Às vezes, o incentivo precisa nascer dentro de você.
A música possui uma capacidade extraordinária de alcançar as pessoas. Quando executada com qualidade, sensibilidade e verdadeira entrega, pode tocar profundamente o coração.
Por isso, se recebemos esse dom, acredito que vale a pena cuidar dele.
Aprender outro instrumento pode transformar sua percepção musical
Se você canta, mas ainda não toca nenhum instrumento, por que não tentar aprender?
O violão, por exemplo, pode ajudar um cantor a compreender melhor acordes, tonalidades, ritmo e estrutura musical.
E se você já toca um instrumento, talvez possa experimentar outro.
Não para colecionar instrumentos nem para querer fazer tudo sozinho.
Mas porque cada instrumento nos ensina a enxergar a música de uma maneira diferente.
Quem toca violão pode descobrir muito sobre ritmo aprendendo percussão.
Quem toca guitarra pode compreender melhor a harmonia estudando teclado.
Quem canta pode desenvolver outra percepção ao aprender um instrumento harmônico.
E, quando já possuímos alguma experiência musical, muitas vezes o segundo instrumento se torna mais fácil de compreender porque vários conceitos já são familiares.
Foi justamente algo assim que aconteceu em um Ministério de Música do qual participei.
Quando um cajón mudou nosso Ministério de Música
Quando me mudei e passei a integrar um novo Ministério de Música, encontrei uma situação bastante comum:
tínhamos três violonistas.
Três pessoas tocando o mesmo instrumento não eram necessariamente um problema, mas percebi que poderíamos aproveitar melhor os dons que já estavam presentes no grupo.
Um dos violonistas demonstrava uma boa percepção rítmica.
Então surgiu uma ideia:
por que ele não tentava aprender cajón?
Comecei a incentivá-lo.
Fizemos uma vaquinha entre o grupo e compramos um cajón para que ele pudesse começar.
Pode parecer uma mudança pequena.
Mas o resultado foi enorme.
A entrada da percussão trouxe outra sustentação rítmica para as músicas e aumentou as possibilidades dos arranjos.
Ao mesmo tempo, eu passei a tocar guitarra.
Assim, em vez de termos simplesmente três violões executando funções semelhantes, passamos a ter violão, guitarra e cajón.
O Ministério ganhou novas possibilidades sonoras sem precisar acrescentar novas pessoas.
Nós apenas começamos a desenvolver de maneira diferente os talentos que já estavam ali.
Essa experiência ficou marcada para mim porque mostrou, na prática, algo muito simples:
às vezes, o crescimento começa quando alguém decide sair do lugar em que já está confortável.
Não enterre seu talento por medo
Existe outro detalhe da Parábola dos Talentos que sempre merece atenção.
O servo que recebeu um talento diz:
“Tive medo e fui esconder teu talento na terra.”
O medo o paralisou.
Isso também pode acontecer conosco.
“Não tenho idade para aprender.”
“Não sou tão bom quanto os outros.”
“Minha voz não é boa.”
“Não consigo tocar esse instrumento.”
“Já tentei uma vez e não consegui.”
“Vai demorar muito.”
Talvez você nunca se torne um músico profissional.
E esse nem precisa ser o objetivo.
A questão é outra:
você está desenvolvendo aquilo que recebeu dentro das suas possibilidades?
Quem hoje toca quatro acordes pode aprender o quinto.
Quem consegue cantar uma melodia pode começar a estudar uma segunda voz.
Quem toca violão há dez anos pode finalmente aprender aquela técnica que sempre evitou.
Multiplicar os talentos não significa que todos precisamos chegar ao mesmo nível.
Na própria parábola, um servo recebe cinco e outro recebe dois.
Os dois são elogiados.
O problema não estava na quantidade recebida.
Estava no que cada um fez com aquilo que lhe foi confiado.
Não se compare: desenvolva aquilo que recebeu
Esse ponto é especialmente importante no meio musical.
É muito fácil olhar para outro músico e pensar:
“Ele canta melhor do que eu.”
“Ele toca muito mais.”
“Ela aprende muito rápido.”
“Eu nunca vou conseguir fazer isso.”
Mas a Parábola dos Talentos nos apresenta outra perspectiva.
O senhor não exige que aquele que recebeu dois apresente o mesmo resultado daquele que recebeu cinco.
Cada um responde pelo que recebeu.
Isso muda completamente a maneira de enxergar nosso crescimento.
Talvez o maior desperdício de um músico não seja tocar menos do que outra pessoa.
Talvez seja deixar de desenvolver o próprio dom porque ficou olhando para o dom do outro.
Seu ponto de comparação mais importante pode ser você mesmo:
o músico que sou hoje está desenvolvendo aquilo que recebeu melhor do que o músico que eu era ontem?
Pequenos avanços também multiplicam talentos
Às vezes pensamos em crescimento musical apenas através de grandes mudanças.
Um curso completo.
Um instrumento caro.
Horas e horas de estudo.
Mas nem sempre precisa começar assim.
Quinze minutos de estudo frequente podem produzir mais resultado do que esperar meses pelo momento perfeito para começar.
Um encordoamento novo não transforma ninguém em grande violonista.
Um instrumento caro também não substitui dedicação.
Mas pequenas atitudes podem representar uma decisão interior muito maior:
eu não quero deixar meu dom parado.
É assim que começamos a sair da acomodação.
Um passo.
Depois outro.
E mais outro.
Até percebermos que aquilo que parecia difícil algum tempo atrás passou a fazer parte naturalmente daquilo que sabemos fazer.
Faça multiplicar os talentos que Deus lhe deu
Quando escrevi originalmente esta reflexão, em 2021, minha intenção era justamente provocar os músicos a não se acomodarem.
E essa continua sendo a mensagem central.
Se Deus lhe deu uma bela voz, cuide dela.
Se lhe deu facilidade com o violão, desenvolva-a.
Se você percebe que possui senso rítmico, experimente a percussão.
Se sente vontade de aprender teclado, comece.
Se existe algo musical que você sabe que poderia melhorar, dê o primeiro passo.
Não precisa acontecer tudo hoje.
Mas precisa existir movimento.
A Parábola dos Talentos nos convida a olhar para aquilo que recebemos e perguntar:
“O que estou fazendo com isso?”
Que possamos pedir ao Espírito Santo a coragem necessária para não enterrar nossos talentos por medo, preguiça ou acomodação.
E que, quando colocarmos nossos dons a serviço de Deus, possamos oferecer não aquilo que simplesmente deixamos guardado, mas aquilo que procuramos cultivar, desenvolver e fazer frutificar.
Invista no seu dom.
Faça-o crescer.
Faça-o produzir frutos.
E coloque esses frutos a serviço de Deus.
Rogério Hirota
Pax et Bonum!
Perguntas frequentes sobre dons, talentos e música
O que a Parábola dos Talentos ensina aos músicos?
Mateus 25,14-30 possui um sentido espiritual mais amplo, mas também pode nos levar a refletir sobre a responsabilidade diante daquilo que recebemos. Para o músico, é um convite a não deixar seus dons parados, mas procurar desenvolvê-los e fazê-los produzir bons frutos.
É errado investir dinheiro em um instrumento para tocar na Igreja?
Não. Se houver condições financeiras e a compra tiver uma finalidade real, investir em um instrumento ou equipamento de melhor qualidade pode fazer parte do desenvolvimento musical. Isso não significa que instrumentos caros sejam necessários para servir bem.
Preciso fazer aulas para desenvolver meu dom musical?
Não obrigatoriamente, mas aulas podem acelerar bastante o aprendizado e corrigir dificuldades que sozinho seriam mais difíceis de perceber. Também existem outras possibilidades de estudo e prática. O essencial é não confundir possuir um dom com não precisar desenvolvê-lo.
Um cantor deveria aprender algum instrumento?
Não é obrigatório, mas pode ser muito útil. Aprender um instrumento harmônico, como violão ou teclado, pode ampliar a compreensão de tonalidade, acordes, ritmo e estrutura musical.
Vale a pena aprender mais de um instrumento?
Pode valer muito a pena, especialmente quando existe interesse e aptidão. Além de ampliar a percepção musical, isso pode trazer novas possibilidades para um grupo, como aconteceu na experiência relatada neste artigo com violão, guitarra e cajón.
Como evitar a acomodação depois de muitos anos tocando?
Estabeleça pequenos desafios. Aprenda uma técnica nova, estude outro instrumento, trabalhe uma dificuldade específica ou retome algo que deixou de praticar. O crescimento não precisa ser rápido; precisa continuar acontecendo.
Como saber qual é o meu dom musical?
Observe aquilo para o qual você demonstra facilidade, interesse e capacidade de desenvolvimento. Experimente cantar, tocar diferentes instrumentos e aprender novas funções. Muitas vezes um talento só se torna evidente depois que damos a ele a oportunidade de aparecer.
Preciso ser um excelente músico para colocar meu dom a serviço?
Não. A própria Parábola dos Talentos mostra pessoas recebendo quantidades diferentes. O ponto da reflexão não é comparar quem recebeu mais ou menos, mas perguntar o que cada pessoa está fazendo com aquilo que recebeu.


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