Como surgiu o nome das notas musicais?
Você sabia que os nomes das notas musicais nasceram de um hino a São João Batista?
Fiquei muito impressionada quando descobri que existe uma ligação tão profunda entre a história da música e a vida da Igreja. Saber que os nomes das notas musicais que utilizamos todos os dias têm origem em um antigo hino cristão é algo que, particularmente, enche o meu coração de alegria.
Nós, que servimos a Deus através da música, muitas vezes estudamos acordes, escalas, ritmos e técnicas, mas nem sempre paramos para pensar que a própria história da música ocidental está profundamente ligada à Igreja e à necessidade de preservar e ensinar os cantos utilizados na oração e na Liturgia.
Por isso, achei interessante partilhar um pouco dessa história aqui no Universo Litúrgico.
A música antes da escrita musical
Durante muitos séculos, grande parte da música era aprendida pela memória e transmitida de pessoa para pessoa. Isso era um grande desafio, especialmente para os monges e cantores que precisavam aprender e preservar um enorme repertório de cantos litúrgicos.
No período medieval, o desenvolvimento do Canto Gregoriano tornou ainda mais necessária a criação de formas que ajudassem a registrar as melodias. Aos poucos surgiram sinais chamados neumas, que indicavam o movimento da melodia.
Entretanto, ainda não existia a partitura como conhecemos hoje.
Foi nesse contexto que surgiu uma das figuras mais importantes da história da música: Guido d'Arezzo, monge e grande estudioso da música.
Guido d'Arezzo e uma revolução no ensino da música
Guido d'Arezzo viveu no século XI e ficou conhecido por desenvolver métodos que facilitaram enormemente o aprendizado do canto.
Antes de suas contribuições, um cantor podia levar muitos anos para memorizar todo o repertório musical. Guido procurou criar uma maneira mais prática para ensinar os intervalos e reconhecer as diferentes alturas dos sons.
Entre suas contribuições está o desenvolvimento de um sistema de linhas que ajudava a identificar com maior precisão a altura das notas, um passo fundamental para a evolução da pauta musical que utilizamos hoje.
Mas talvez uma de suas ideias mais conhecidas tenha sido utilizar sílabas para ajudar os alunos a aprender e memorizar os sons.
E é aqui que a história fica ainda mais bonita.
As notas musicais nasceram de um hino a São João Batista
As sílabas que deram origem aos nomes das notas musicais vieram de um antigo hino em latim dedicado a São João Batista, conhecido pelas palavras iniciais:
Ut queant laxis
Guido d'Arezzo utilizou as primeiras sílabas de cada uma das frases desse hino para ensinar os diferentes graus da escala.
Veja:
UT queant laxis
REsonare fibris
MIra gestorum
FAmuli tuorum
SOLve polluti
LAbii reatum
Sancte Iohannes
Assim surgiram as seis sílabas:
Ut – Ré – Mi – Fá – Sol – Lá
Uma curiosidade interessante é que as frases do hino começavam em alturas sucessivamente mais elevadas, o que facilitava a associação entre cada sílaba e um determinado som.
Ou seja, aquele antigo canto religioso acabou se tornando uma verdadeira ferramenta para ensinar música.
É impressionante pensar que, séculos depois, crianças, músicos, cantores, instrumentistas e compositores do mundo inteiro ainda utilizam um sistema que tem ligação direta com esse antigo hino cristão.
Mas de onde veio o "Si"?
Originalmente, o sistema utilizado por Guido trabalhava com seis sílabas. O Si não fazia parte dessa primeira sequência.
Mais tarde, quando se consolidou a necessidade de nomear o sétimo grau da escala, foi utilizada uma referência ao último verso do hino:
Sancte Iohannes
Das iniciais de Sancte Iohannes surgiu:
SI
Assim, a sequência passou a ser:
Ut – Ré – Mi – Fá – Sol – Lá – Si
E por que hoje dizemos "Dó" em vez de "Ut"?
Outra curiosidade é que a primeira nota não se chamava originalmente Dó, mas sim Ut.
Com o passar do tempo, percebeu-se que Ut era uma sílaba menos confortável para cantar, pois termina com uma consoante. Por isso, ela acabou sendo substituída por Dó, uma sílaba mais fácil de pronunciar e sustentar no canto.
Em alguns contextos musicais e teóricos, especialmente na tradição francesa, o antigo Ut ainda pode ser encontrado.
A Igreja e a preservação da música
Quando olhamos para essa história, percebemos como a necessidade de cantar, ensinar e preservar a música dentro da Igreja contribuiu para o desenvolvimento da própria escrita musical.
É claro que a música continuou evoluindo durante os séculos. A pauta, a forma das notas, os instrumentos, a harmonia e a maneira de escrever música passaram por muitas transformações.
A pauta de cinco linhas que conhecemos hoje também é resultado de uma longa evolução.
Mas é bonito perceber que, entre monges, escolas de canto e antigos hinos litúrgicos, encontramos algumas das raízes da maneira como aprendemos e escrevemos música até os nossos dias.
Uma curiosidade que fala diretamente aos músicos da Igreja
Talvez você, assim como eu, já tenha cantado inúmeras vezes:
Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si...
sem imaginar que esses nomes carregam uma história que passa pela fé, pela Igreja, pela vida monástica e por um hino dedicado a São João Batista.
Para nós, que servimos através da música, isso pode ser mais do que uma simples curiosidade histórica.
É também um lembrete de que a música sempre encontrou um espaço especial na oração e na vida da Igreja.
Mais do que conhecer escalas, acordes, técnicas vocais ou história da música, o mais importante é colocar aquilo que aprendemos a serviço de Deus e da comunidade.
Que cada músico, cantor e integrante de um ministério de música possa continuar buscando aperfeiçoamento, mas sem perder aquilo que é essencial: o desejo de anunciar Jesus através do dom que recebeu.
Peço hoje ao Senhor que abençoe o seu ministério, que renove as suas forças e reinflame o carisma que Ele mesmo colocou em seu coração.
Que nunca nos esqueçamos de que, antes de sermos músicos, somos servos.
E que cada Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si que tocarmos ou cantarmos possa, de alguma forma, ajudar alguém a se aproximar de Deus.
Deus abençoe a sua missão!
Pax et Bonum!
Rogério Hirota

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