Só vale se for canto gregoriano?

Só Vale se For Canto Gregoriano? A Música Católica e o Ministério de Música

Fonte: Ministério Ressurreição – Jacareí – SP
Autor: Rogério Hirota
Publicado originalmente em: 15 de maio de 2010

Só vale canto gregoriano na Missa?

Quem participa de um Ministério de Música Católico provavelmente já encontrou, na internet, discussões bastante acaloradas sobre qual seria a maneira correta de celebrar a liturgia e, principalmente, sobre quais músicas e instrumentos poderiam ou não ser utilizados na Missa.

Em alguns sites e blogs encontramos conteúdos de perfil ultratradicionalista, muitas vezes chamados de rad-trads ou tradicionalistas radicais. Alguns desses grupos se apresentam como defensores da liturgia tradicional e do chamado "rito correto da Missa", fazendo críticas severas à forma como a liturgia é celebrada atualmente.

Em determinados casos, há também uma rejeição ou forte crítica ao Concílio Vaticano II, sob o argumento de que ele teria sido apenas um concílio pastoral e, portanto, não teria a mesma natureza de outros concílios dogmáticos.

É importante fazer uma distinção.

A Igreja Católica possui uma longa tradição litúrgica, e a existência de diferentes formas de celebração ao longo da história não deveria, por si só, transformar católicos em adversários uns dos outros.

O problema começa quando uma determinada preferência litúrgica passa a ser utilizada para julgar a fé dos outros católicos, classificando como "modernistas", "progressistas" ou até mesmo como pessoas menos católicas aqueles que participam da liturgia celebrada segundo as normas atualmente vigentes.


Rito antigo ou rito atual: o que realmente importa?

A discussão sobre diferentes formas de celebração da liturgia é legítima e pode ser feita de maneira séria.

Existem católicos que possuem grande apreço pela tradição litúrgica anterior às reformas do século XX, assim como existem católicos que participam normalmente da forma ordinária da liturgia.

O problema não está necessariamente em preferir uma determinada forma litúrgica.

O problema está em transformar essa preferência em critério para medir a fidelidade de outro católico à Igreja.

Uma Missa celebrada segundo a forma litúrgica aprovada pela Igreja continua sendo a celebração da Eucaristia.

O centro da Missa não é o estilo do músico.

Não é o idioma.

Não é o instrumento.

Não é o gosto pessoal do sacerdote ou da assembleia.

O centro é Cristo.

É justamente por isso que precisamos ter cuidado para não transformar questões secundárias em verdadeiras "guerras" dentro da própria Igreja.


Mas isso significa que tudo é permitido na liturgia?

Não.

E esse é outro ponto que considero muito importante.

Criticar determinados exageros do tradicionalismo não significa defender que qualquer coisa pode ser feita na Missa.

Infelizmente, existem abusos litúrgicos.

Eu mesmo já presenciei situações que ultrapassam aquilo que está previsto para a celebração.

A liberdade dentro da liturgia não significa liberdade para fazer qualquer coisa.

Existem normas litúrgicas que precisam ser respeitadas.

O músico católico também precisa compreender isso.

Não basta dizer:

"É uma música bonita e fala de Deus, então pode ser cantada na Missa."

A pergunta precisa ser mais profunda:

Essa música é adequada para a liturgia?


Só o canto gregoriano é correto?

Foi justamente aqui que encontrei uma questão que motivou este artigo.

Encontrei, em determinado momento, um texto de perfil tradicionalista radical que condenava a música utilizada atualmente na Igreja e defendia o canto gregoriano como única forma verdadeiramente correta de música para a liturgia.

É aqui que discordo.

Valorizar o canto gregoriano é uma coisa. Dizer que somente ele pode ser utilizado é outra.

O canto gregoriano possui uma importância enorme na história da Igreja e constitui uma parte importantíssima do patrimônio musical católico.

Não tenho absolutamente nada contra ele.

Pelo contrário.

Acredito que os músicos católicos deveriam conhecer melhor essa tradição.

Mas não podemos transformar uma preferência musical em uma regra absoluta que condene todas as outras expressões musicais.


Canto gregoriano e música católica atual

Existe uma realidade que precisamos reconhecer.

O canto gregoriano e o latim possuem uma longa tradição na Igreja, mas hoje existe uma parcela relativamente pequena de músicos que possui formação suficiente para executar adequadamente o repertório gregoriano.

Enquanto isso, a realidade das paróquias brasileiras é outra.

Temos comunidades com violões, teclados, instrumentos de percussão, cantores e ministérios de música que estão procurando aprender e melhorar.

A música católica brasileira ainda está crescendo.

Ela tem muito a aprender.

Existem músicas excelentes.

Existem músicas que precisam melhorar.

Existem composições musicalmente pobres.

Existem também músicas muito bem elaboradas.

Isso faz parte de um processo de amadurecimento.

O caminho não deveria ser simplesmente interromper esse desenvolvimento e dizer:

"Voltemos ao gregoriano e todo o resto está errado."

Precisamos, sim, conhecer o patrimônio musical da Igreja, mas também precisamos formar novos músicos e compositores católicos.


A música católica brasileira demorou a desenvolver sua identidade

Durante muito tempo, a música utilizada nas comunidades católicas brasileiras esteve marcada por diferentes correntes e contextos pastorais.

Em determinados períodos, muitas canções possuíam forte enfoque social, especialmente influenciado por movimentos ligados à Teologia da Libertação.

Podemos lembrar músicas como "Converte Meu Coração", "Glória a Deus nas Alturas é o Canto das Criaturas" e determinados cantos de ofertório que enfatizavam temas como o irmão, o pobre, a vocação e a transformação social.

É importante fazer uma distinção.

Não estou dizendo que falar do pobre, do irmão ou da justiça social seja errado.

Muito menos estou dizendo que a Igreja simplesmente condene toda e qualquer reflexão social presente na Teologia da Libertação.

O problema está no excesso e na possibilidade de uma determinada corrente ideológica ocupar um espaço tão grande que outros aspectos fundamentais da fé e da liturgia sejam deixados em segundo plano.

Quando uma mensagem social passa a dominar completamente a celebração e o aspecto litúrgico e cristocêntrico fica enfraquecido, precisamos fazer uma reflexão.

A Missa não pode ser reduzida a uma mensagem política ou social.


Não podemos transformar a Missa em uma disputa ideológica

Da mesma maneira que precisamos tomar cuidado para que uma determinada visão social não domine a liturgia, também precisamos tomar cuidado com o outro extremo.

Não podemos transformar a Missa em uma disputa entre:

tradicionalistas x progressistas

conservadores x modernos

gregoriano x música popular

latim x português

A liturgia é maior do que essas disputas.

O músico precisa compreender que está servindo à Igreja.

Não está ali para provar que sua ideologia é melhor que a do outro.


A Renovação Carismática Católica e o crescimento da música

Um dos fenômenos que contribuiu muito para o crescimento da música católica brasileira foi a Renovação Carismática Católica.

A partir dela, houve um grande crescimento de grupos de oração, ministérios de música, músicos, cantores, compositores e novas formas de evangelização através da música.

Isso trouxe muitos frutos.

É claro que também existem críticas que podem ser feitas.

Nem toda música produzida em ambientes carismáticos é automaticamente adequada para a liturgia.

Nem toda música religiosa é música litúrgica.

Mas seria injusto negar a contribuição que a Renovação Carismática trouxe para o desenvolvimento musical e para a participação dos leigos na Igreja.

Muitos músicos descobriram seus talentos e começaram a colocá-los a serviço de Deus.


Minha experiência com a música católica

Posso falar também a partir da minha própria experiência.

Antes da minha conversão, eu tinha contato com grupos musicais e estava acostumado a utilizar recursos musicais mais complexos, como acordes dissonantes, campos harmônicos e escalas e modos gregos.

Quando alguém falava em música católica para mim, a primeira imagem que vinha à cabeça eram aquelas músicas extremamente simples, que eu considerava quase "música de aprendiz" quando comparadas ao que eu estava acostumado a tocar.

Minha visão era completamente equivocada.

Depois da minha conversão, comecei a acompanhar apresentações na TV Canção Nova e tive contato com grupos e artistas católicos.

Conheci, por exemplo, o Vida Reluz.

Percebi que existiam músicas católicas com arranjos trabalhados, diferentes estilos, boas melodias e, principalmente, músicas capazes de tocar o coração.

Foi uma descoberta importante para mim.

Percebi que eu poderia utilizar aquilo que já havia aprendido musicalmente para também servir a Deus.

E foi assim que comecei a enxergar meus talentos musicais de uma maneira diferente.


Deus pode usar nossos talentos musicais

Essa experiência também me fez compreender algo muito importante:

não precisamos abandonar nossos talentos quando nos convertemos.

Precisamos aprender a colocá-los a serviço de Deus.

Se alguém sabe tocar violão, pode usar esse talento para servir.

Se sabe cantar, pode cantar.

Se sabe compor, pode compor.

Se possui conhecimento musical, pode ajudar outros músicos.

O problema não está em desenvolver uma música católica tecnicamente boa.

Pelo contrário.

Precisamos incentivar nossos músicos a estudar.

Precisamos de músicos católicos que conheçam:

  • teoria musical;

  • harmonia;

  • ritmo;

  • canto;

  • arranjo;

  • composição;

  • instrumentos;

  • liturgia;

  • espiritualidade.

Quanto melhor preparados estiverem os músicos, melhores condições terão de servir.


A música católica ainda tem muito a crescer

A música católica brasileira cresceu muito.

Hoje existem grandes músicos, compositores, cantores e ministérios.

A música católica também passou a alcançar públicos muito maiores, e artistas ligados à Igreja conquistaram espaço significativo no cenário musical brasileiro.

Isso mostra que existe um potencial enorme.

Mas ainda estamos longe de dizer que chegamos ao auge.

Ainda temos muito a melhorar.

Precisamos formar músicos.

Precisamos incentivar compositores.

Precisamos estudar a tradição musical da Igreja.

Precisamos conhecer o canto gregoriano.

Precisamos conhecer a polifonia.

Precisamos compreender a música litúrgica.

Precisamos também saber utilizar adequadamente os recursos musicais contemporâneos.

Não precisamos escolher entre tradição e qualidade musical. Podemos buscar as duas coisas.


O canto gregoriano deve ser esquecido?

De maneira nenhuma.

O canto gregoriano merece ser conhecido e valorizado.

É parte importante da tradição musical da Igreja e pode enriquecer a formação dos músicos católicos.

Um Ministério de Música que tenha oportunidade de estudar canto gregoriano certamente poderá aprender muito.

Mas valorizar o gregoriano não significa desprezar todo o restante.

O erro está em transformar uma tradição legítima em uma arma para atacar outros católicos.

Da mesma forma, quem gosta de música contemporânea não deveria desprezar o patrimônio musical da Igreja simplesmente porque considera o gregoriano "antigo".

A Igreja é suficientemente grande para conhecer sua tradição e, ao mesmo tempo, formar novos músicos.


João Paulo II e a música

São João Paulo II também demonstrou, em diferentes momentos de seu pontificado, preocupação com a música e com a evangelização através das artes.

A Igreja percebe que a música possui uma enorme capacidade de comunicar a fé.

Por isso, não devemos tratar a música simplesmente como uma questão de gosto pessoal.

Também precisamos evitar a ideia de que determinado gênero musical, por ser popular ou contemporâneo, é automaticamente inadequado.

O discernimento precisa considerar o contexto e, principalmente, a finalidade.

Uma música pode funcionar muito bem em um show de evangelização.

Outra pode ser excelente para um grupo de oração.

Outra pode ser apropriada para um retiro.

E outra pode ser mais adequada para determinado momento da liturgia.

Nem tudo precisa servir para tudo.


O que realmente devemos procurar na música litúrgica?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

Em vez de perguntar simplesmente:

"É gregoriano?"

podemos perguntar:

"Essa música está de acordo com a liturgia?"

"O texto é adequado?"

"Ela favorece a participação da assembleia?"

"Está adequada ao momento da celebração?"

"Ajuda a comunidade a rezar?"

"Coloca Deus e o mistério celebrado no centro?"

Essas perguntas são muito mais importantes do que simplesmente descobrir se uma música é antiga ou moderna.


O problema é quando o músico vira o centro

Existe também um perigo no outro extremo.

Se o Ministério de Música utiliza instrumentos, arranjos e recursos musicais simplesmente para impressionar a assembleia, também estamos errando.

A Missa não é um show.

O músico não é o artista principal.

O altar não é um palco.

A assembleia não é uma plateia.

O Ministério de Música deve ajudar a comunidade a participar da celebração e elevar o coração a Deus.

Por isso, qualidade musical e humildade precisam caminhar juntas.


Tradição, formação e renovação

Talvez o melhor caminho para a música católica esteja justamente no equilíbrio.

Precisamos:

conhecer a tradição;

respeitar a liturgia;

valorizar o canto gregoriano;

conhecer a música sacra;

formar novos músicos;

desenvolver nossos talentos;

melhorar a qualidade das composições;

e utilizar os estilos contemporâneos com discernimento.

Não precisamos destruir o passado para construir o futuro.

E também não precisamos impedir o futuro para preservar o passado.


Afinal, só vale canto gregoriano?

Não.

O canto gregoriano possui um lugar importantíssimo na tradição da Igreja e deve ser valorizado.

Mas não podemos afirmar simplesmente que somente o canto gregoriano possui valor ou que toda música católica contemporânea é inadequada.

A Igreja possui uma rica tradição musical e, ao longo de sua história, conheceu diferentes formas de expressão.

O verdadeiro desafio é fazer com que a música esteja a serviço da liturgia, da oração, da evangelização e da comunidade, respeitando as normas da Igreja.

Por isso, em vez de criar mais uma divisão entre católicos, devemos incentivar nossos músicos a estudar e a buscar uma formação cada vez melhor.


Uma mensagem para os Ministérios de Música

Se você participa de um Ministério de Música Católico, não tenha medo de estudar.

Conheça o canto gregoriano.

Conheça a música sacra.

Conheça a tradição da Igreja.

Aprenda seu instrumento.

Estude canto.

Estude harmonia.

Conheça melhor a liturgia.

Ore.

E coloque seus talentos nas mãos de Deus.

Não aceite a ideia de que ser músico católico significa ser musicalmente limitado.

Também não aceite a ideia de que ser tecnicamente bom é suficiente.

Precisamos unir técnica e espiritualidade.

Precisamos de músicos preparados e humildes.

Precisamos de músicos que conheçam a tradição, mas que também saibam dialogar com a realidade atual.

Precisamos de músicos que não busquem apenas mostrar o que sabem, mas que desejem servir.


Conclusão

O debate sobre canto gregoriano e música católica contemporânea não deveria se transformar em uma guerra entre católicos.

O canto gregoriano é uma riqueza que precisamos conhecer e valorizar.

A música católica contemporânea também precisa ser incentivada a crescer em qualidade, profundidade e fidelidade à liturgia.

Precisamos deixar para trás a ideia de que toda música antiga é automaticamente boa e toda música moderna é automaticamente ruim.

Da mesma forma, não devemos pensar que tudo o que é novo é necessariamente melhor.

Precisamos de discernimento.

A Igreja possui uma história musical riquíssima.

Que possamos aprender com aquilo que nossos antepassados nos deixaram e, ao mesmo tempo, desenvolver os talentos dos músicos de hoje.

Não devemos enterrar nossos talentos.

Devemos desenvolvê-los.

Devemos estudá-los.

Devemos ensaiar.

Devemos rezar.

E devemos colocá-los a serviço de Deus.

Que um dia possamos olhar para a música católica brasileira e dizer que ela alcançou um nível de qualidade tão alto que se tornou novamente uma verdadeira referência musical, como já aconteceu em outros períodos da história da Igreja.

O caminho não é escolher entre tradição e renovação. O caminho é buscar a verdade, a beleza, a qualidade e a fidelidade à liturgia, sempre colocando Cristo no centro.


Perguntas frequentes sobre canto gregoriano e música católica

Só o canto gregoriano é permitido na Missa?

Não é correto reduzir toda a música litúrgica exclusivamente ao canto gregoriano. O gregoriano possui lugar especial na tradição da Igreja, mas existem outras formas de música litúrgica e sacra. A escolha dos cantos deve respeitar as normas litúrgicas e a finalidade de cada momento da celebração.

O canto gregoriano é importante para a Igreja Católica?

Sim. O canto gregoriano constitui uma parte muito importante do patrimônio musical e litúrgico da Igreja e merece ser conhecido e valorizado pelos músicos católicos.

Violão pode ser usado na Missa?

O uso de instrumentos deve ser feito de acordo com as normas litúrgicas e de maneira que favoreça a celebração. O simples fato de um instrumento ser moderno não significa que ele seja automaticamente inadequado.

Música católica e música litúrgica são a mesma coisa?

Não. Existem músicas religiosas utilizadas em evangelização, grupos de oração, retiros e outros ambientes pastorais que não necessariamente possuem a mesma função de um canto litúrgico.

A música moderna pode ser usada na Igreja?

O fato de uma música ser moderna não determina, por si só, se ela é adequada ou inadequada. É necessário analisar o texto, o contexto, o momento litúrgico, a forma de execução e sua capacidade de favorecer a oração e a participação da assembleia.

Por que o Ministério de Música deve estudar?

Porque os talentos musicais precisam ser desenvolvidos. O estudo, o ensaio e a formação litúrgica ajudam o músico a oferecer um serviço mais preparado à comunidade.

O músico católico deve conhecer o canto gregoriano?

Conhecer o canto gregoriano pode enriquecer muito a formação de um músico católico, especialmente por sua importância histórica e litúrgica. Entretanto, conhecer essa tradição não significa que o músico precise rejeitar todas as outras formas legítimas de expressão musical.

Qual é o principal objetivo do Ministério de Música?

O principal objetivo não deve ser apresentar os músicos, mas servir à celebração e ajudar a comunidade a participar e rezar, colocando os talentos musicais a serviço de Deus.

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